terça-feira, 30 de maio de 2017

Meditação na Clínica

A psicanálise Freudiana afirma que é preciso fortalecer o ego para ter uma vida plena, e a clínica psicanalítica trabalha com essa ideia de fortalecimento do ego. Já o budismo e outras  filosofias orientais afirmam que é preciso abandonar o ego para ter uma existência mais significativa, para evoluir... Será que apenas um desses pensamentos estaria certo?

Atualmente existem muitos estudiosos, psicólogos e terapeutas que buscam integrar essas duas vertentes de pensamento, que parecem a princípio opostas. Porém poucos admitem, ou mesmo conhecem, o fato de que há aproximadamente um século Carl Gustav Jung já havia integrado esses dois pontos de vistas da humanidade, quando desenvolveu a sua teoria do "Processo de Individuação" e conceitos como o "Self".



A Clínica Junguiana sempre se propôs a ajudar o indivíduo a ir muito além do fortalecimento do ego, buscando um aprofundamento no âmbito do inconsciente coletivo, um "descascar" de camadas superficiais, e a integração dos opostos até a totalidade psíquica. A "busca" por essa totalidade, o entendimento do universo como um todo e a compreensão da integração de todas as "partes" existentes, também estão presentes no budismo e em outras filosofias orientais.

Para Jung nós não somos o nosso ego. Não somos formados apenas pelas nossas experiências, influências do ambiente e de pessoas "chaves" no desenvolvimento infantil como pais, familiares e professores; isso tudo forma o ego. Porém nós temos um "centro" essencial, que vem antes disso tudo, inato, que seria quem realmente somos. A este outro centro da psique Jung denominou "Self". Todo o processo de individuação se resume na tomada de consciência desse self. 



Inicialmente nós só temos consciência do ego, ele que define para nós mesmos quem somos. O Self está inconsciente. Durante o processo de individuação (que vale lembrar é um processo contínuo, infinito e não linear), começamos a integrar os conteúdos que estão no nosso inconsciente, e assim nos tornamos cada vez  mais inteiros, cada vez mais conscientes de quem realmente somos. 

Jung definiu algumas etapas desse processo, que como eu já disse, não é linear, porém podemos ver alguns pontos pelos quais todos passam, como:



  • o reconhecimento da persona, que são os papeis sociais que interpretamos e nos identificamos, que usamos como "máscaras" em nosso dia a dia; 
  • o confronto com a sombra que são os nossos conteúdos mais inconscientes, os quais negamos, não queremos admitir que temos e projetamos no outro; 
  • e a integração da ânima e do ânimus, que são as energias Yin e Yang (feminino e masculino) que existem dentro de nós. 




Todas as etapas desse processo são passos a caminho da totalidade psíquica e nos aproximam mais da nossa verdadeira natureza, pois é como se fossemos tirando camadas que nos impediam de percebe-la. Conforme vamos percebendo essa natureza essencial, ela vai se tornando mais consciente e logo mais ativa em nossa vida e dia-a-dia. Passamos a pensar e agir mais da forma que realmente somos do que da maneira antiga do ego. Porém você não deixa ter ego. Ele continua existindo, pois você precisa dele pra viver em sociedade, ele só não comanda mais totalmente a sua vida.



Logo na clínica Junguiana trabalhamos sim no fortalecimento do ego, mas para que a pessoa tenha estrutura psíquica para enfrentar todas essas etapas e desconstruir essa "falsa" identidade para encontrar quem ela realmente é.

Todo esse processo se assemelha muito a alguns textos e filosofias orientais. Principalmente as não-duais que defendem exatamente o encontro da verdadeira natureza, mas sem negar o mundo em que se vive, a realidade externa. 

Algumas práticas de meditação, como por exemplo a meditação mindfulness, propõe a atenção plena no momento presente e o "desligar" dos pensamentos, que nos traz a compreensão de que não somos a nossa mente, mas sim uma consciência "além" dela, que a observa e que pode sim, "controlá-la". Com a regularidade dessa pratica, realmente sentimos que não somos os nossos pensamentos, sentimos essa "atenção plena" essa consciência por trás da mente. Em outras palavras a proposta é a mesma do processo de individuação, um distanciar do próprio ego, para compreender que somos muito mais que ele.



Quando não nos identificamos com nossos pensamentos, os processos de "cura" se tornam muito mais acelerados. Se você observar são os nossos padrões de pensamentos, nossa forma de pensar, nossa mente, que cria as nossas patologias. Se conseguimos nos distanciar deles, observar seus padrões e começar a quebrar e/ou transformar esses padrões, podemos amenizar imensamente ou até mesmo acabar com diversas doenças da mente e do corpo. 

Se você se identifica com a sua doença ("eu sou ansiosa", "eu sou deprimida", "eu sou gorda/magra/feia/etc - e por isso tenho um distúrbio alimentar", enfim poderia dar milhares de exemplos...) o processo de cura se torna muito mais difícil, pois curar seria abandonar uma parte de si, seria "destruir" uma parte do seu ego, do que você acredita ser, sua identidade. Por pior que a doença possa ser na prática, isso gera um enorme apego inconsciente e, também de forma inconsciente, o ego se defende de tudo que quer "destruí-lo", resumindo seu inconsciente trabalha contra a cura.



Se compreendemos e sentimos que não somos apenas esse ego, que não somos esses pensamentos, que existe uma natureza do ser mais profunda e livre desses padrões, automaticamente nosso inconsciente busca essa natureza de forma muito mais contundente, pois como disse Jung, o nosso inconsciente busca naturalmente a integração, a totalidade psíquica. Por isso a meditação é tão eficaz no processo, pois com regularidade a prática traz exatamente essa sensação de "Ser": essencial, pleno e inteiro.

E combinada com a terapia, ao mesmo tempo trabalhamos no fortalecimento da pessoa para que ela consiga lidar com o processo de "abandono" do que ela acreditava ser, que é um processo possível porém bem difícil de se fazer só; e em paralelo com o reconectar-se com a sua essência, com seu self. É um caminho espiralado de confrontar, compreender, abandonar e reconhecer...Não foi à toa que Jung denominou de processo de individuação, pois é mesmo um processo, que não tem um objetivo final, é um processo de uma vida inteira. 



Porém por mais "trabalhoso" que pareça ser, é imensamente recompensador. Sentir a plenitude dentro de si, sentir que você controla a sua mente e não ela que te controla, sentir que você é capaz de se amar, de se acolher, de ser quem você é independente de outros ou de algo externo...são experiências que Jung chamou de "numinosas", pois são difíceis de explicar em palavras, é algo que contém a sensação de sagrado. 


No mês de Junho estarei apresentando uma palestra no Rio no II Congresso de Clínica Junguiana e Arteterapia: Tradições e História da Arte (Informações: clique aqui) e um workshop teórico e prático em Campos dos Goytacazes (Informações: clique aqui), ambos sobre o uso da meditação na clínica Junguiana.






sexta-feira, 19 de maio de 2017

Como os nossos pais

A psicanálise nos chamou atenção para o peso da influência das relações parentais (mãe e pai, ou quem ocupar esse papeis) na formação de nossa psique e personalidade. Hoje já sabemos que nossas experiências e sentimentos nos primeiros anos de vida não só influenciam, como podem ser cruciais, na estrutura do nosso ego e determinantes nos nossos sentimentos e ações futuras.  Pesquisas mais recentes também comprovam a influência da mãe e do pai na vida intra-uterina, e como a maneira que a mãe se sente pode afetar os sentimentos  e a formação da psique do bebe.

Porém também sabemos que nenhuma família é "perfeita", todas as mães passam por estresses e dificuldades, mesmo em circunstâncias externas adequadas, pois a própria gravidez é uma experiência carregada de conteúdo emocional e que afeta o inconsciente da mãe. Não existe uma fórmula mágica que diga o que deve ser feito. Então como lidar com o fato de que o que entendemos como nosso "eu" teve sua base em experiências das quais não recordamos e, o "pior", não tivemos o menor controle? Como aceitar que as ações, sentimentos, e até o inconsciente de nossos pais influenciam tanto em quem nós somos?


Não culpar é a primeira dica. Aliás "culpa" deveria ser uma palavra proibida, excluída de nosso vocabulário, porque ela só atrapalha nossa vida e nosso desenvolvimento pessoal. Como disse anteriormente não existe uma cartilha de como ser mãe ou pai, e a primeira coisa que precisamos entender é que no momento em que uma criança começa a ser gerada, todas as questões inconscientes da gestação e infância dos próprios pais vem à tona. Então além das dificuldades diárias que podem existir como replanejamentos financeiros,  logísticos e familiares; da consciência da responsabilidade que é dar à vida a um ser que por muitos anos permanecerá indefeso e dependente de você; ainda tem as questões inconscientes, que a maioria não da atenção, mas que estão presentes e com certeza influenciando ações e sentimentos. Compreender que os pais são seres humanos com passados, traumas, vivências e dificuldades é o primeiro passo para parar de culpá-los, seja pelo que for.

Não se culpar também é muito importante, afinal quantas mães e pais tem o privilégio de planejar e escolher o momento perfeito para ter um filho? Muito poucos. Então a tal "gravidez indesejada" é o mais comum de vermos por aí, e na minha opinião um jeito péssimo de caracterizar uma gravidez. Toda criança é desejada, mesmo sob as piores circunstâncias imagináveis. Ou você realmente acredita que o inconsciente não tem papel nenhum num evento cósmico tão trabalhoso quanto a reprodução humana? Vejo na clínica muitos casos de adolescentes e adultos que sentem culpa ou sentimento de rejeição e não entendem porque, muitas vezes pode ser derivado do sentimento de "não ter sido desejado", vindo de forma inconsciente ou mesmo por coisas que os próprios pais acabam contando para os filhos.

"Qualquer experiência, não importa quão ruim ela pareça, guarda em si uma ´benção´. O objetivo é encontra-lá."

O importante nessa relação é a consciência. Da parte dos pais a consciência da responsabilidade que é ser parte fundamental da formação da psique de outro ser humano, para assim poder tomar decisões mais conscientes em relação aos filhos. E da parte dos filhos, quando crescem,  a consciência de que não existe uma "cartilha" pronta para a criação de uma criança, a libertação de conceitos dualistas como "certo" ou "errado" e a compreensão de que se só pode dar o que se tem, o que se aprendeu. Os pais são seres humanos com seus inconscientes cheios de questões como qualquer outro ser humano. Abandonar os arquétipos de mãe e pai idealizados socialmente, pode ser libertador nessa relação.

Eliminando a culpa nos resta a aceitação. Aceitar que nossa base emocional e psíquica é formada nesses icógnitos primeiros meses de vida, dos quais não temos nenhuma lembrança, onde estávamos totalmente vulneráveis; e mais ainda, aceitar que somos parte de nossos pais, que nossas ações hoje certamente tem influência das ações deles, que nossa forma de ver o mundo certamente tem influencia da forma como eles viam o mundo...Difícil para alguns aceitar isso não? Mas aceitar é o primeiro passo para transformar.

A má relação com os pais, principalmente na adolescência, faz com que a pessoa comece a negar tudo o que eles são. Não queremos nos parecer com aquilo e por isso é comum negarmos fortemente suas maneiras de se comportar e pensar, buscando fazer tudo diferente. Porém quando negamos nossos pais, estamos negando uma parte de nós. Estamos negando a nós mesmos.

A negação faz com que a gente não veja, com que a gente "empurre pra baixo do tapete" tudo aquilo que nos incomoda, mas a poeira não desaparece, ela está lá se acumulando. Essa negação de si mesmo em larga escala, pode gerar conflitos de personalidade, problemas de auto estima, conflitos de auto imagem e tendências auto destrutivas.

Deméter e Perséfone - Mito grego do feminino oposto e completar na relação mãe/filha.


 Isso é relativamente comum na adolescência, pois é uma fase em que começamos a ter a necessidade de nos diferenciar de todas as referências que temos para fortalecer uma personalidade própria e independente, porém não é menos comum ver adultos que não passaram dessa fase, no sentido de que, por ter uma relação ruim com as figuras parentais, mantém essa negação para o resto de suas vidas, não aceitando simbolicamente aquelas partes dentro de si, e conseqüentemente passarão isso adiante para seus filhos.

E como nos diferenciar sem negar? Aceitando, reconhecendo e transformando. Se aceitamos as figuras maternas e paternas como elas são, compreendendo na medida do possível seus processos como seres humanos, e também aceitamos essas figuras simbolicamente dentro de nós mesmos, reconhecendo que somos sim influenciados por elas e que com certeza temos semelhanças fortes em nossa psique, podemos a partir daí ter a clareza e a consciência do que queremos transformar. Dessa forma podemos nos diferenciar, abraçando e acolhendo tudo de construtivo e positivo que nos foi herdado e trabalhando na evolução do que, por algum motivo, considerarmos nocivo.



Somente através desta compreensão e aceitação teremos o poder da transformação e as rédeas de nossas vidas. Do contrário continuaremos negando, acreditando que não somos nada daquilo e inconscientemente repetindo seus mesmos passos, talvez de outras maneiras, porém com a mesma energia. Afinal, só podemos transformar aquilo que estamos conscientes.
                                                        


sexta-feira, 14 de abril de 2017

O Olhar do "Outro"

A maneira como as pessoas atualmente usam as redes sociais  é um fenômeno psicológico que me chama muita atenção e me faz pensar e questionar diversos fatores do ponto de vista psicológico. O aprofundamento nesse tema poderia dar um livro, mas por enquanto vou resumir alguns pontos de vistas pessoais, porém com embasamento em meu conhecimento e estudos sobre o ser humano, e espero que meus questionamentos sirvam também para você, leitor deste blog.

A primeira pergunta que ecoa na minha cabeça diante dos fenômenos sociais da atualidade (não só as redes sociais, como reality shows e afins...) é: Porque será que precisamos tanto do olhar do outro para validar nossa identidade? Vivemos num momento que parece que "ser" não basta, é preciso mostrar que se é. Mais do que isso, me parece muitas vezes que sem "platéia" as pessoas simplesmente não são. Ou nem sabem quem são. Inclusive passou a valer mais dizer que é, ou o que fez, do que de fato ser ou fazer.


Muitas pessoas criam uma persona para a sociedade que de fato não são, mostram supostas ações que de fato não fazem, e o que mais me impressiona é que observo que esse "mostrar", essa criação dessa persona aos olhos dos outros, conforta e preenche como se a pessoa realmente fosse aquilo. Isto é, como por exemplo, se todo mundo acha que eu sou generosa, ajudo as pessoas, faço doações, etc. não importa mais se eu faço ou não, o que importa é como os outros me veem. E eu me distancio cada vez mais de mim, de como eu me vejo, criando uma auto imagem totalmente ilusória e em desacordo com a realidade.

O olhar do outro é um tema antigo e recorrente nos estudos de psicanálise e da mente humana, e sim ele é extremamente importante e, em algumas teorias até essencial para a construção do ego e da identidade. Lacan por exemplo fala muito sobre o tema quando descreve o que chamou de "estágio do espelho", momento onde o bebe não tem percepção ainda do que é o seu próprio corpo físico e o que é o corpo físico da mãe ou o mundo externo. Em sua percepção é como se tudo fosse uma coisa só, e ele começa a se definir ao olhar pra mãe (ou quem faz esse papel), sentir o corpo da mãe e aos poucos perceber que aquele é um outro ser, que não ele. E a partir daí começa-se a se constituir a noção de ego, de identidade separada do todo, quer dizer através do outro há a criação do seu próprio eu.

Winnicott também estudou muito sobre essa fase dos primeiros meses de vida, ressaltando a importância da mãe (ou de quem faz o papel de mãe) nos primeiros meses do bebe, pois é exatamente a partir desta relação que começa a construção do ego. Mais pra frente, quando a criança já tem noção da sua identidade separada do todo, o "outro" continua sendo fundamental na formação da personalidade, pois a cultura, os pais, a família, os professores, todos esses estímulos externos serão responsáveis pela formação do nosso super ego, segundo Freud. Isto é, irão definir todas as nossas crenças, ideais de certo e errado, limitações, medos e desejos.

E assim nossa mente cria essa identidade ilusória que tanto nos apegamos durante toda a vida...
Você percebe como todo o processo de criação de uma identidade é feito por estímulos externos, isto é, pelos "outros"? Como então isso pode ser você???


Observando esse processo, acredito que seja fácil perceber que existe um "eu" que não é essa identidade, existe um consciência "por trás" de todo esse processo, observando seu decorrer. E acredito que também seja fácil perceber que o que chamamos de identidade não somos nós de fato, é apenas um conjunto de concepções externas que introjetamos durante a vida. Nossa identidade é, de fato, "os outros". Então porque nos apegarmos tanto a ela ao invés de buscar quem realmente somos "por baixo" de todas essas camadas "de outros"? 

O que me assusta atualmente é que me parece que muitas pessoas estão fazendo o caminho contrário, estão se apegando cada vez mais a essas máscaras, personas, identidades ilusórias... e a insegurança de no fundo saber que não se sabe quem é, gera uma necessidade de auto afirmação infantil, como se todos voltassem para aquele estágio onde apenas o olhar do outro nos define.


Não somos mais bebes recém nascidos...Nossa mente já criou e fortaleceu uma identidade e nossa consciência já é capaz de observar essa identidade e compreender o "quebra cabeça" da qual ela é formada. Sim, precisamos dela para lidar com a realidade, o mundo externo, a sociedade. Mas precisamos também nos lembrar a todo momento que não somos ela. Você não é a sua patologia, sua doença, sua depressão, ansiedade, o seu mal humor, a sua ideologia... Não somos nada disso. E não é bonitinho dizer que somos! Também não somos nossa amizade, nossa generosidade, nosso entusiasmo ou alegria...Porque a limitação de nos definir como um ponto microscópico se na verdade somos um todo infinito?

É preciso coragem para se encontrar. É preciso a coragem de assumir que não se é nada daquilo que sempre foi. É preciso a coragem de não precisar mais do "olhar do outro" para te definir, e dar um profundo mergulho dentro de si. O caminho é pra dentro e não pra fora. A liberdade só é possível quando se sabe quem é, e apenas quem você realmente é pode te curar de qualquer coisa.



quarta-feira, 22 de março de 2017

O que é um Complexo e como ele atua na nossa psique

Com certeza você já ouviu falar de "complexos" o uso desse conceito se tornou comum através de termos que foram popularizados, como "complexo de inferioridade", "complexo de Cinderela", entre outros que acabaram sendo muito falados, porém nem sempre muito bem utilizados ou explicados. Por isso vamos entender melhor o que é um complexo.

Esse conceito foi desenvolvido por Carl Gustav Jung que o denominou como "Complexos Afetivos", resumidamente seriam "um conjunto ou aglomerado de ideias ou representações mentais dotadas de forte carga afetiva". Os complexos se organizam a partir de experiências emocionais significativas para o indivíduo, mas que por algum motivo se tornam inconscientes, seja por serem reprimidas pelo consciente ou por serem um conteúdo totalmente novo para ele.

Carl Gustav Jung


Simplificando, os complexos seriam como "nós de emoção", diversas experiências, pensamentos, sentimentos que se conectam em torno de um mesmo conteúdo emocional ( um mesmo afeto). O complexo sempre tem um conteúdo emocional principal, um núcleo inconsciente, e as conexões se dão a partir dele, com elementos semelhantes, essas conexões que esse núcleo faz podem ser muitas e quanto maiores, maior a influência do complexo no nosso consciente, isto é no nosso dia-a-dia, muitas vezes sem nos darmos conta.



Pegando um exemplo dos mais comentados que é o complexo de inferioridade, a pessoa que o possuí muitas vezes não percebe que o possuí. Ela pode ter tido diversas experiências que a levaram a se sentir inferior, como pais que diminuem os filhos, ou comparam com os irmãos fazendo um se sentir melhor/pior que o outro; bulling de colégio de colégio e faculdade; posição social; cargos de trabalho e por aí vai... Todas essas experiências de certa forma geram o mesmo sentimento: de inferioridade. Logo toda a energia que essas experiências geram, todas as emoções e pensamentos que essas experiências geraram ficam aglomeradas no inconsciente em torno deste sentimento e toda vez que a pessoa sentir a inferioridade de novo, ela acenderá um alerta na psique que irá mexer com todo esse conglomerado de energia.

Na maioria das vezes o nosso consciente repele este sentimento, este conglomerado todo, isto é, este complexo; pois não sabe lidar com ele, e muitas vezes busca compensar através de uma busca inútil pelo sentimento "oposto", no caso, o de superioridade ou de poder. Uma pessoa com este complexo, por exemplo, pode acabar diminuindo os outros ao se sentir inferior. Ou buscar construir uma imagem dela mesma como alguém "superior" aos outros. Porém o complexo está ali, presente em seu inconsciente, e quanto menos conhecemos ele, mais ele pode nos dominar.



Jung dizia que "nós não possuímos complexos, são os complexos que nos possuem." Exatamente porque quanto mais inconsciente essa carga enorme de energia está, mais fácil é dela explodir e te dominar sem que você perceba. Principalmente em momentos conflituosos.

Porém os complexos por si só não são patológicos, isto é, não são uma doença ou um problema, na verdade eles apontam para o problema, eles mostram que existe um conflito em relação aquela determinada questão, nos direcionam para o âmago do conflito, e assim nos dão a chance de torna-lo consciente para que ele seja transformado.


Na escuridão nada pode ser visto. Jung também costumava dizer que "o inconsciente é inconsciente". O que significa que, se é inconsciente nós na verdade não temos nem a chance de saber, muito menos de transformar. Por isso iluminar esses conteúdos é o primeiro passo para a transformação.

A Terapia Junguiana, e tantos outros métodos de terapia e auto conhecimento que existem hoje, são ferramentas que podem te ajudar nessa investigação interna, porém o caminho só pode ser trilhado por você e para dentro de você. E exige determinação, é uma busca constante por se tornar inteiro.


Jung também observou que os complexos teriam ligações com os arquétipos, pois constatou que existem tipos bem caracterizados e facilmente reconhecíveis de complexos em diferentes pessoas, o que sugere que esses repousem sobre bases igualmente típicas e comuns a todos os seres humanos – os arquétipos. Visto dessa forma, há sempre uma ligação entre as vivências individuais e as grandes experiências da humanidade.


quarta-feira, 8 de março de 2017

O caminho da transformação - Tópicos para ajudar no processo

Todo mundo quer mudar algo em si, seja um hábito, um padrão emocional, um vício, uma forma de pensar...e por aí vai. Mas como começar esse processo de transformação e como conseguir alcançar seu objetivo?

A primeira coisa para compreender é que a transformação é um processo. Não é algo que acontece da noite pro dia. Muitas vezes queremos transformar determinados aspectos ou hábitos que temos há muitos anos, às vezes por toda nossa vida, e precisamos entender o quanto aquele padrão está enraizado em nós, em nosso inconsciente, influenciando nossos pensamentos, ações e até mesmo nossa forma de ver o mundo.

Aliás, este é um ponto importante, você sabe o quanto seus pensamentos e hábitos influenciam a sua forma de ver o mundo?



No budismo tibetano existe uma teoria chamada de "Os 6 Reinos" ou "estados psicológicos da alma",  que explica que durante a vida passamos por diversas "dimensões" mentais, de acordo com a forma que pensamos e, consequentemente, agimos. Citando o inferno, dirigido pela raiva, o reino dos fantasmas famintos pela avareza, o dos animais (preguiça), o nosso reino humano (necessidade de controle), o dos semideuses ou titãs (competição/inveja) e o dos deuses (orgulho). Esses reinos nada mais são do que estados psicológicos no qual entramos que criam um "filtro" em nossos olhos, passamos a ver o mundo, as pessoas e tudo a nossa volta através desse filtro.

A Roda da Vida - Imagem que exemplifica os 6 reinos do Budismo

Por exemplo, se meus pensamentos são sempre negativos, eu acordo já de mau humor, a primeira coisa que não sai de acordo com a minha expectativa eu já penso "hoje não é meu dia" e já começo a achar que vai dar tudo errado...eu estou condicionando a minha mente a ver "problemas" e vou passar a ver isso em todos os acontecimentos do meu dia. No fim do dia estarei pensando "Que dia infernal!". Enquanto que para uma outra pessoa que manteve a sua mente no momento presente, sem fantasias ou expectativas, pode ter resolvido os mesmos problemas com mais clareza e simplesmente teve um dia ótimo.

 Não é só uma questão da famosa "lei da atração", o que pensamos atraímos, é também o fato de que a forma que pensamos determina a forma como vemos o mundo.

Dito isso, é importante então começar um processo de transformação consciente. Saber que numa transformação profunda, você não irá transformar apenas seu interior, seus hábitos e pensamentos, mas sim todo o "seu mundo" irá mudar. E esse é o primeiro tópico do nosso caminho:

1. Consciência da Transformação:
Você sabe o que você quer mudar e porque? Tenha plena consciência do porque o fator em questão é negativo pra você e descubra os valores que virão quando atingir a transformação. Tenha consciência do que irá mudar na sua vida e o que você vai "ganhar" com isso, pois o processo pode ser difícil, logo é importante você focar nos pontos positivos que irão surgir com a resolução.



2. Paciência e Acolhimento com você mesmo:
Qualquer processo de mudança é uma morte. Forte isso não? Mas é a verdade e por isso temos tanto medo de mudar, principalmente padrões e questões muito profundas. Então depois de estar consciente dos termos e profundidade dessa transformação, o próximo passo é entender que não é fácil e aceitar as dificuldades que surgirem em cada momento.

Você deve lembrar há quanto tempo aquilo é um hábito pra você, e entender que anos de comportamentos e pensamentos influenciam em tudo, até mesmo na sua identidade. Você está deixando uma parte de você que já não te serve mais e se tornando uma nova pessoa. O ego não gosta disso, e nossos apegos vão nos dificultar. Então tenha paciência com você mesmo, se escute, e perceba o momento de ir mais devagar. Tenha compaixão e amor por você em todo o processo. Não brigue com você e não se cobre, pois as cobranças só tornam o processo mais sofrido.



3. Planejamento - Comece pelo mais fácil:
Planejar ajuda muito! Faça uma lista de ações que você precisa tomar para estabelecer essa mudança, e faça uma agenda enumerando que ações você fará a cada dia. Comece sempre pela ação que parece mais fácil e prazerosa pra você. Isso porque a frustração é um dos fatores que mais atrapalha o processo.

Se você se propõe a fazer um movimento e não consegue, você se frustra, se sente mal e sua força de vontade diminui, assim você perde a energia e vai deixando de fazer mais coisas e se frustrando mais e isso vira um ciclo vicioso. O contrário gera um ciclo positivo, se você se propõe a um pequeno movimento e consegue realiza-lo, mesmo que não seja imenso, você sente que fez o que se propôs e isso alimenta a sua força de vontade, faz com que você se sinta produtivo e assim você tem mais energia para realizar a próxima etapa.


4. Tenha uma âncora:
A âncora seria algo que vai te trazer de volta nos momentos que você pensar em desistir. Ela pode ser uma motivação mental, uma recompensa que você pode se permitir, ou até mesmo um objeto que te faça lembrar e principalmente sentir a sensação boa da transformação concluída. Um exemplo bobo, mas eficaz é quando uma pessoa quer perder ou ganhar peso e guarda uma foto de quando ela estava com o corpo que ela considera ideal pra ela. Aquela foto lembra a ela como ela se sentirá bem quando concluir o processo. A âncora traz para o presente a sensação que você precisa sentir.

A minha âncora, por exemplo, sempre foi a meditação. Para diversos processos de transformação eu uso a meditação como âncora, pois durante o estado meditativo eu me lembro da minha essência, de quem eu realmente sou, e sei que aquele processo vai me aproximar mais de mim mesma e da possibilidade de manter esse estado no meu dia-a-dia.

O importante é que a sua âncora te lembre do porque estar engajado no processo e te ajude a trazer pro presente o estado mental e emocional que você pretende alcançar. E isso nos leva para nossa última dica:



5. Esteja presente:
Sabe aquela velha premissa do "um dia de cada vez" dos grupos de auto ajuda? É simplesmente isso. Essa premissa sempre ajudou nos processos de mudança, porque ela simplesmente traz a nossa mente pro presente. Se você decide parar de fumar e passa todo o tempo pensando "nunca mais vou fumar na minha vida", será muito mais difícil você conseguir parar realmente, pois um pensamento tão drástico como esse deixará todo seu corpo em alerta, devido ao vício químico e psicológico  que o cigarro cria no corpo. Se você pensa "não vou fumar hoje" seu corpo e mente conseguem lidar melhor com a sentença. E afinal é sempre hoje. E só hoje importa. É como usar um truque "contra" nossa mente, para facilitar o processo.



Espero que esses tópicos ajudem a todos que estão passando por processos de mudança. Na verdade estamos sempre passando por processos de mudança sejam transformações conscientes ou inconscientes, pois a vida é movimento, se algo está estático, está morto.

Por fim deixo o meu email como contato para qualquer um que sentir vontade de receber uma ajuda durante o processo, sintam-se à vontade para pedir dicas, informações, textos, dicas de livros ou apenas um "help": vanessa.cmartins@gmail.com





quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Abrindo mão do controle

Essa semana vi um vídeo sobre desapego e decidi falar mais sobre o tema, pois percebo na minha clínica que no fundo o desejo e a grande dificuldade de todos é desapegar, seja de padrões, seja de passado, de pessoas, ou de hábitos nocivos. O vídeo se chama " O Coração do desapego" e é de um Psicoterapeuta e professor de Yoga chamado Michael Stone.

Atualmente ouvimos muito falar sobre desapego, sobre iluminação e outros conceitos do budismo e filosofias orientais, mas será que entendemos o que é realmente desapegar de algo?
Nós seres humanos somos extremamente apegamos, não só a coisas como nossas casas, carros e objetos pessoais, como também somos apegados a pessoas, a sentimentos, a emoções, a situações, a idealizações, fantasias...Somos apegados ao tempo e a tantas coisas abstratas que de fato não existem no momento presente.

E porque todo esse apego? A resposta é simples: Necessidade de controle. 
Nossa mente tem uma necessidade imensa de controlar tudo, e um medo indescritível de perder este controle. Se repararmos em nossos pensamentos, iremos perceber que estamos sempre pensando em situações do passado, (emoções, pessoas, apegos..)ou em situações do futuro, que não ocorreram ainda, (planejamentos, desejos, objetivos...). Nossa mente nunca está no momento presente, porque no momento presente não temos essa ilusão de controle. O presente simplesmente é o que é. E nossa mente não sabe lidar com isso.



Mas a boa notícia é: Você não é a sua mente. Se ficarmos atentos conseguiremos perceber a consciência por trás desses pensamentos, e podemos conseguir trazer a nossa mente pro momento presente, acalmando os pensamentos e abrindo mão do controle. A meditação ajuda muito nesse exercício.

Eckart Tolle em seu livro "O Poder do Agora" diz que  "todas as coisas realmente importantes como a beleza, o amor, a criatividade, a alegria e a paz interior surgem de um ponto além da mente. É quando começamos a acordar. " 

O mesmo dizia Jung sobre o Ego e o Self. Nossa mente, nossa ideia de identidade e nossa identificação com os pensamentos, são apegos do nosso Ego. A necessidade de controle é do Ego, e temos medo de ver o que existe "além" deste ego, pois estamos por demais apegados a nossa ideia de identidade. Porém é só desapegando dessas ideias e identificações que trazemos para a consciência nossa verdade mais essencial.



Desapegar não é não se importar com nada, não é vender seus pertences e viver pelo mundo como um monge no alto da montanha, ou não ter sentimentos e andar por aí como um zumbi. Desapego significa não estar preso a sua mente, não estar preso a ideias fixas e se abrir para aceitar as coisas como realmente são. É engajamento com o presente. É estar totalmente envolvido com a sua vida. É intimidade.

Intimidade não é algo que se cria, intimidade é exatamente abrir mão das ideias fixas, desapegar. Se você tem ideias enraizadas sobre uma pessoa, você nunca verá essa pessoa como ela realmente é, logo nunca será intimo dela. Isso vale pra tudo, você se torna intimo do universo quando o vê como ele realmente é, belo e terrível ao mesmo tempo. Você se torna intimo da sua própria vida, e do mundo, quando se abre para aceita-la como é, todas as belezas, alegrias e dificuldades e tristezas. 




A iluminação não é transcendência mas sim estar totalmente imerso na vida e aberto para o presente.





Vídeo original "The Heart of Non-Attachment"


terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Dicas de ano novo: O poder dos pensamentos

"Somos o que pensamos e com nossos pensamentos criamos o nosso mundo" (Buda)

O que eu mais escutei em 2016 foi gente reclamando que o ano foi horrível. E o que eu mais senti foi uma onda de pensamentos negativos, onde me pareceu que o foco de 90% das pessoas passou a ser os problemas que estavam acontecendo, sejam problemas políticos, sociais ou pessoais. É claro que os problemas existiram, e existem, mas ficar o tempo todo falando sobre eles irá resolve-los? E se acreditarmos que nossos pensamentos tem o poder de atração, o que eu acredito, como serão os frutos de uma mente focada em tanta negatividade?

Jung disse "Onde há luz, há sombra", é claro que todo o ser humano, e consequentemente a humanidade tem muitos problemas difíceis pra gente de lidar em nosso dia a dia e mais difíceis ainda de transformar, porém se inundarmos nossa mente com sombra nunca conseguiremos ver a nossa luz. Se conseguirmos manter nossa mente e pensamentos focados em ideias positivas, acontecimentos positivos, comprovadamente todo nosso corpo responderá a isso, emocionalmente e biologicamente, pois o estresse libera diversas químicas nocivas em nosso organismo. Focando no positivo, estaremos mais leves e felizes até mesmo para lidar melhor com os momentos de dificuldade que surgirem.

A ideia não é negar e viver num mundo de fantasias, mas sim ter conhecimento de toda a sombra mas sem se contaminar por ela. Ter o conhecimento dos problemas e questões difíceis, sejam pessoais ou mundiais, mas sem permitir que isso invada toda a sua mente, e consequentemente, o seu discurso e emoções.

Então aqui vão duas dicas fáceis de fazer para fortalecer nossos pensamentos positivos:

1 - Pote da Felicidade
Separe uma boa quantidade de pequenos papeis coloridos (tipo "post it"), uma caneta e um pote transparente. Deixe em um local visível da sua casa, uma mesa ou escrivaninha e todos os dias, no fim do dia escreva algo bom que aconteceu para você naquele dia, pode ser o encontro com alguém, uma palavra de um desconhecido na rua, um céu azul, uma árvore bonita que você nunca havia reparado antes, um pensamento, um sentimento...qualquer coisa boa do dia. Dobre o papel e coloque no pote.
Comece agora mesmo!
No último dia do ano de 2017 você vai abrir o pote e ler tudo de bom que aconteceu no seu ano!
Esse trabalho é muito legal para não esquecermos que sempre há algum detalhe positivo, mesmo num dia que consideramos muito ruim, e para nos ajudar a começar o novo ano com muitos pensamentos e energia positiva. Além de que o potinho todo colorido fica bem bonito como decoração. ;)

PS: Você também pode abrir alguns papeizinhos num dia que estiver precisando de uma injeção de positividade, e ler tudo de bom que já lhe aconteceu no ano!


2- Quadro dos desejos
Essa técnica exige um pouco mais de trabalho, mas é muito eficaz!
Você vai precisar de uma cartolina branca, revistas velhas para recortar ( quanto mais melhor!) tesoura e cola. 
Primeiro trace mentalmente de 3 a 6 objetivos para realizar no ano de 2017. Não é bom ser mais de 6 para não dispersar demais o foco. Pense nesses objetivos de forma clara e afirmativa. 
Depois, com seus objetivos em mente, procure nas revistas imagens que representem pra você a realização desses objetivos. (Ex: Eu quero aprender a dirigir coloco uma imagem de uma pessoa dirigindo, ou de um carro. Quero comer melhor e fazer exercícios, procure imagens de pratos saudáveis, frutas, legumes, etc. E imagens de pessoas se exercitando...e por aí vai...)
Você pode colocar algumas palavras também se quiser.
E pode decorar como quiser, com canetas coloridas, cola colorida, purpurina, etc.
A ideia é que fique bem bonito e agradável aos seus olhos.
Depois de pronto cole num local que você veja sempre, mas não muito exposto à visitas, por exemplo dentro do seu armário ou na parede do seu quarto.

Esse exercício além de te ajudar a traçar seus objetivos com mais clareza e foco, te ajuda a não esquecer deles durante o ano e a estarmos sempre enviando para nosso inconsciente imagens positivas do que desejamos alcançar, e isso é mais poderoso do que imaginamos! Nosso inconsciente determina, sem sabermos, muitas de nossas ações, logo isso nos ajuda a realmente realizar nossos desejos e atrair a energia necessária para nos ajudar. Lembre-se atraímos o que pensamos!


Espero que tenham gostado e que coloquem em prática!
Um feliz 2017 pra todos!



quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Como os Arquétipos influenciam nossas vidas

Qual seu conto de fadas favorito?
E aquele personagem dos quadrinhos que você nunca esqueceu?
E aquele personagem de um filme no qual você se identificou totalmente?
Ou podemos perguntar até mesmo, qual a sua religião, ou o mito religioso que você mais gosta?
Se pararmos pra prestar atenção nisso, descobriremos muito sobre nós mesmos, sobre nosso inconsciente e os segredos que ele guarda.


Jung definiu Arquétipos como "núcleos instintivos que trazem padrões de comportamentos humanos" desde o início da história da humanidade. Esse gigantesco "arquivo" faz parte de nosso inconsciente coletivo, obviamente não acessamos ele por inteiro com a nossa consciência humana, porém através de símbolos, imagens, contos, mitos, que carregam esses arquétipos, nós temos a oportunidade de acessá-los.

Quando nos deparamos com esses símbolos, imagens ou experiências, carregadas com todos esses arquétipos é muito comum que um ou outro acabe nos chamando mais atenção, "brilhando" em nossa mente consciente e isso é uma forte dica de como estamos nos sentindo naquele momento e pode nos ajudar até mesmo a perceber nuances da nossa vida  e da nossa própria psique que não percebemos facilmente.


Quando pensamos em arquétipos muitas vezes pensamos na mitologia grega, em deuses e deusas, ou em contos de fada, mas a verdade é que os arquétipos são sempre atualizados em nossa sociedade. Todos os filmes que vemos atualmente, novelas, livros que lemos e contos atuais, todos estão repletos de antigos arquétipos que só vão se atualizando ao longo dos anos de acordo com o momento da sociedade. Se pararmos pra pensar as "receitas" dos filmes "Blockbusters" são sempre as mesmas: Um grande mal, ou um grande vilão; um herói ou heroína, uma mocinha ou mocinho, um romance...

Atualmente tem sido muito comum novas construções menos maniqueístas como um herói não tão bonzinho ou um vilão injustiçado pelo mundo, porém se pararmos para analisar são os mesmos arquétipos se atualizando de acordo com as transformações sociais. Até mesmo nas religiões podemos ver os arquétipos se repetindo e se atualizando, a grande mãe, virgem maria, o salvador, deus do sol, cristo...

                                     

Gaia e Maria - Arquétipos da Grande Mãe

Além disso, o que não é tão óbvio à olhos leigos, é que nós também acabamos por internalizar esses arquétipos e interpreta-los em nossas vidas, Jung chamou isso de "Arquétipos da Psique Humana". Com todo esse registro infinito de personagens e comportamentos humanos que "bombardeiam" nosso inconsciente, nossa psique acaba "pescando" alguns deles, ou fragmentos de alguns deles, os quais por diversos motivos nos identificamos mais, e nossos pensamentos e ações acabam trazendo toda essa bagagem neles. Nós moldamos nossa personalidade com recortes desses arquétipos e, muitas vezes, nos distanciamos de quem realmente somos.

Por isso os arquétipos estão presentes em tudo no nosso dia a dia, o que fazemos e o que pensamos, e se ficarmos atentos, essa pesquisa pode se tornar uma ferramenta incrível para acessar mais sobre nós mesmos. São pistas que nosso Self está dando para nosso ego, durante toda a nossa vida.

E afinal, sabemos que nosso inconsciente influencia muito mais as nossas ações do que nossa mente consciente, logo se temos uma ferramenta tão potente para acessá-lo e descobrir mais sobre nós mesmos, precisamos utiliza-la.

Na clínica o uso de arquétipos através de contos, mitos, imagens, tarot, etc. pode ser de grande ajuda para acessar o inconsciente de forma mais lúdica e com menos mecanismos de defesa da consciência. 



quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Mudança de hábito

Algumas pessoas que atendo na clínica tem me questionado ultimamente como realmente mudar hábitos, e eu pessoalmente também tenho questionado isso. Qual o ponto de equilíbrio entre a restrição do prazer e a permissão do prazer? Em que momento uma mudança de hábito para de ser uma ação sofrida e restritiva para se tornar natural?

Pesquisando e pensando sobre o assunto encontrei alguns direcionamentos. O que é um hábito, afinal? Como ele se forma e se condensa de forma tão estrutural em nossa vida? Um hábito é algo que estamos acostumados a fazer e que de alguma forma, nos da prazer. Uma ação que, como toda ação, é gerada por pensamentos e emoções. Pensamos algo, sentimos uma vontade, e daí vem a ação. Mas porque quando sinto que aquela ação contínua, ou seja, aquele hábito me faz mal, eu não consigo mudar tão facilmente?

"Eu não sou o que acontece comigo eu sou o que eu escolho me tornar"


Existem milhares de respostas pra essa pergunta, muitos hábitos vem da infância, como por exemplo a forma como você se alimenta. Provavelmente existem diversas questões psicológicas e emocionais envolvidas nesse hábito. E se você repetiu uma maneira de ser durante toda a vida, realmente se torna mais difícil transforma-la, porque você cria uma espécie de núcleo mental para esse comportamento. Mantendo este exemplo da alimentação, se eu associo comida a prazer e não á nutrição, e sempre que eu tenho um desprazer ( um dia ruim, uma briga, etc.) eu como para compensar, eu já criei um um núcleo, um processo de ação que é "sinto que preciso compensar meu desprazer e como para ter prazer." E mesmo que você não esteja mais se sentindo bem comendo daquela forma ou quantidade, você continuará tendo essa reação ao ter um dia ruim, pois é a reação que seu corpo e mente conhecem há tantos anos.

Isso serve pra tudo. Se eu bebo quando fico triste há anos, percebo que me faz mal, mas não consigo mudar porque minha mente já sabe que quando eu fico triste a melhor forma de anestesiar e não sentir aquilo é beber. Se eu tomo café de manhã para despertar, o médico me manda não tomar mais café, eu não consigo porque meu corpo e mente entenderam por anos que eu preciso do café pra acordar...e por aí vai. E esse processo muitas vezes se torna tão automático, que nossa vontade é deixada totalmente de lado.

Esse processo não é somente um processo psicológico, mas também físico. Nosso cérebro fisicamente cria o que é chamado de “caminho neural” quando mantemos um hábito por muito tempo. As sinapses cerebrais ocorrem entre um neurônio e outro formando assim uma espécie de “caminho” e quanto mais você reforça aquele mesmo pensamento ou hábito, mais automático ele se torna. 

Porém se criarmos novos “caminhos neurais” de forma proposital e consciente podemos fortifica-los até que eles se tornem automáticos. Se trata da tal mudança de hábitos. No início precisaremos de um esforço, pois todo o nosso corpo e mente já estão acostumados, quase que programados, a agir de uma determinada maneira, mas se insistirmos nós podemos reprograma-lo conscientemente até que a nova ação se torne confortável.



O primeiro passo é entender o que você ganha mantendo o hábito antigo. Por pior que ele seja e por mais que você queira mudar, se você ainda não mudou é porque existe um ganho. seja totalmente honesto com você mesmo e descubra "O que eu ganho com isso?" Identificando o ganho você deve se perguntar "Esse ganho é real?" "Ele ainda faz sentido na minha vida?" "Estou realmente ganhando mais do que se eu mudasse esse hábito?" Com esse auto questionamento você desconstrói o motivo que sua mente criou pra fazer aquilo, ou seja começa desconstruir o antigo caminho.

E aí podemos criar um novo caminho, mas pra isso é preciso esforço. Este é o momento onde conscientemente você irá se esforçar muito, e será difícil no inicio, procure sempre manter os seus motivos em mente, aquelas perguntas básicas, para não desistir. E é muito importante também negociar com você mesmo. Pense nos seus desejos como uma mola, se você apertar de mais, quando você soltar ela volta com toda a força e te empurra, e não adiantou nada todo o tempo que você tentou contê-la. 

No Shaivismo (filosofia oriental), entende-se que o ser humano passa por 12 estágios evolutivos, sendo o primeiro a total inconsciência de si e do todo, o que poderíamos chamar de estar no "piloto automático" e o 12º a iluminação, ou seja, virar corpo de luz. Segundo essa filosofia, a grande maioria dos seres humanos estão entre os estágio 1 e 2, sempre oscilando do 1 pro 2 e voltando ao 1. Isso é exatamente o que vemos e sentimos quando tentamos transformar algo em nós. 

Esse "despertar" que é a percepção de que algo está te fazendo mal e é preciso transformar, é a ponte para o segundo estágio. O Segundo estágio é um estágio de disciplina absoluta, onde você começa a perceber tudo que não te faz bem e querer abandonar totalmente, aí você se restringe ao máximo, até que em algum momento não suporta mais e, em nossas palavras "chuta o balde", e volta a inconsciência, voltando aos hábitos antigos, que já eram naturais pra você e não te exigem esforço.

Se conseguimos nos manter na disciplina do estagio 2 e desapegar do que deixamos pra trás, em algum momento nossas ações passam a ser naturais, conseguimos criar os novos caminhos neurais, criar os novos hábitos, e por nos sentirmos melhores fazemos um contato maior com a gente mesmo e aos poucos, vamos sentindo o que realmente faz bem pra gente de forma natural e fluída. E aí seria o estagio 3, onde não há esforço e você está em contato maior com a sua essência por isso sabe o que te faz bem e o que não faz.

Seja pela visão da ciência ou da filosofia oriental, o que importa no fim das contas é escutarmos o nosso ser, escutarmos o que sentimos. Se sentimos que algo está fazendo mal e precisamos mudar, temos que dar ouvidos a isso e descobrir porque queremos continuar nos fazendo mal. Não é de fora que vem a mudança, nem o ímpeto por mudar, é dentro que nasce a vontade de ser uma pessoa melhor, mais saudável, mais feliz...e a transformação real é sempre de dentro para fora.



sábado, 24 de setembro de 2016

Transformação, mudança e morte.

O que as transformações internas que acontecem em nossa mente e personalidade tem em comum com as mudanças externas da vida, como uma mudança de casa, de cidade, o término de uma relação ou até mesmo a perda de alguma pessoa querida?

O luto para a psicologia não acontece apenas diante de uma situação literal de morte ou perda, mas também em situações em nossa vida onde sentimos a sensação de morte, mesmo que não estejamos de fato diante dela, ou será que estamos? Afinal  cada vez que transformamos questões emocionais, comportamentos e pensamentos é como se uma parte de nós estivesse morrendo, quanto mais intensa essa transformação, maior pode ser a sensação do luto.

Carta da Morte do Tarot de Toth


Por isso muitas vezes no processo terapêutico a pessoa pode se sentir deprimida, ou achar que está "piorando" enquanto na verdade o que está acontecendo é apenas transformação. E porque será que é tão difícil mudar? Mesmo quando queremos nos livrar de hábitos, comportamentos e pensamentos que não nos servem mais, temos grande dificuldade de transforma-los por completo. Isso acontece por conta do apego, que segundo as tradições orientais é uma das grandes ilusões da humanidade e uma das grandes causas do sofrimento humano.

Nós ocidentais não conseguimos encarar a morte como um processo natural da vida. Tememos a morte de uma tal forma que mal conseguimos falar ou pensar sobre ela. E o que é o medo da morte se não o apego ao ego, isto é, o apego ao estado físico que nos encontramos neste momento? Se aprofundarmos nessa linha de pensamento vamos perceber que o apego é a raiz de todo medo. O medo nada mais é do que o apego ao estado e forma que nos encontramos, ou que algo se encontra, temos medo do novo porque não sabemos como vai ser e não podemos nos apegar a algo que não conhecemos.

A filosofia oriental vê a morte como um processo, uma parte no ciclo da vida, tudo se transforma o tempo todo. Para eles exite um deus que cria (Shakti) um deus que mantém (Vishnu) e um deus que destrói (Shiva) e nenhum deles é visto de forma dual, bom ou ruim, todos os tres são necessários para o universo existir. Se não há destruição, morte, fim,  não há movimento e se não há movimento não há vida.

Shiva


É aquela velha analogia da lagarta que vira borboleta. Ela se tornou um ser totalmente diferente. Outro ser mesmo, ela não é mais lagarta, e sim borboleta. A lagarta morreu, mas nem por isso a vida que nela estava deixou de existir. Se a lagarta tivesse um nome, uma ideia de identidade na mente dela, talvez ela tivesse medo de virar borboleta.

Nós somos tão apegados ao nosso "nome", a essa ideia de identidade que não conseguimos imaginar nada além disso. E esse apego faz muita vezes com que uma pessoa se cristalize num conjunto de pensamentos e comportamentos, que ela acredita ser ela mesma, e nunca mude. Nasce lagarta e morre lagarta. Com a oportunidade de ser multicolorida e voar livre pelo céu, jogada fora.



É exatamente isso que fazemos todas as vezes que lutamos contra um processo natural de morte, seja ele de transformação interna, mudanças externas na vida, ou de fato a morte física. Nos debatemos contra um processo natural que está presente em todo o universo, muito antes de fazermos parte dele, e desperdiçamos muitas vezes oportunidades de crescimento e iluminação.

No momento em que compreendermos e aceitarmos a impermanência de todas as coisas que existem, conseguiremos nos desapegar dessa ideia de ego tão enraizada na mente humana e finalmente perceberemos que somos muito mais do que um nome ou um conjunto de comportamentos e pensamentos. Somos muito mais do que a nossa mente. Somos muito mais do que humanos...

E assim sim, livre do apego, estaremos livres do medo e permitiremos a transformação, seja ela o que vier. Saberemos observar o momento e permitir que ele passe e abriremos espaço para o que chega, num fluxo incessante de morte e nascimento. Essa é a dança do universo. E assim seremos borboletas e quem sabe, muito mais que isso...

"A morte está a todo instante destruindo o que a vida constrói. Em cada instante a vida se faz presente, e ao mesmo tempo, este instante torna-se passado e já foi devorado pela morte. E é na alteridade da existência, na tensão entre vida e morte que se torna possível o movimento de construção de nosso existir."