sábado, 29 de julho de 2017

Um desabafo sobre suicído e a intolerância à dor

"No Japão os objetos quebrados são reparados com ouro. Aquela marca passa a ser vista como um pedaço único e valioso da história do objeto, que é adicionada à sua beleza."


Essa semana eu soube de um suicídio.
Dentre tantos suicídios (e pessoas com pensamentos suicidas) que já ouvi, na clínica ou na vida, esse foi o que mais me marcou.
Não, eu não conhecia a pessoa pessoalmente. Mas ao meu olhar (e talvez por conta das minhas próprias idealizações) era uma pessoa iluminada.

Como psicoterapeuta esse tema é algo que preciso lidar, algumas vezes. Compreendo os inúmeros distúrbios emocionais e psíquicos que muitas pessoas carregam. Fora da clínica, quando eu escuto sobre o suicídio de um cantor de banda ou um ator famoso, eu logo penso, buscando uma razão, que a vida pública deve ser difícil, que essa exigência da figura pública, da persona, pode tornar tudo meio vazio, e coisas assim...Mas e o suicido de um "mestre"?

Ele não se intitulava mestre espiritual até onde eu sei, mas era. Ministrava ensinamentos sobre meditação, budismo, yoga, no mundo inteiro. Também era Psicoterapeuta e dava ensinamentos sobre Jung, juntando o olhar da psicologia analítica com as práticas orientais, assim como eu. Eu acompanhava as palestras dele online, escutava seus áudios, via seus vídeos, e me inspirava.
Assim como ele me inspirou deve ter inspirado milhares de pessoas com o seu trabalho. Casado e pai de dois filhos. Se matou.

Uma inquietação imensa nasceu dentro de mim...
Não é fácil lidar com a ideia do suicídio. Mais difícil ainda lidar com essa ideia vinda de uma pessoa que, na minha idealização, era uma pessoa tão conectada com o sentido da vida.
E dessa inquietação surgiu um questionamento que só agora consigo colocar em palavras:
Será que estar conectado com o sentido da vida, do universo, basta diante da dor que precisamos lidar todos os dias?

É muito bonito dizer que somos pessoas alegres, leves, que meditamos e que percebemos a beleza da vida, que estamos integrados com o universo...
Mas e a sombra? Você está olhando pra ela? Mas e a sua dor? Onde ela está?

Todos temos dores profundas, cicatrizes profundas, e a nossa sociedade transforma elas em segredo.
Ninguém fala sobre elas. Você as esconde atrás de sorrisos e posts no facebook. Ou, quem sabe, atrás de meditações e uma vida espiritualizada. Criando uma nova persona, se distanciando mais ainda da sombra, da dor. Fugindo.
Tudo que fazemos sempre é fugir da dor.
Todas as compulsões desenfreadas, as ansiedades, as carências exageradas, as dependências...tudo isso são fugas da dor.

Já ouvi, em uma conversa informal, que o pensamento suicida vem de um sentimento de desconexão total, "você não se sente conectado com nada, nem consigo mesmo", a pessoa falou. A questão é que, se existe uma dor visceral em você e você foge dela por toda a vida, mas ela continua ali, pulsando lá no fundo e volta e meia vindo à tona, talvez, o inconsciente comece a anestesiar tudo, numa fuga desesperada dessa dor.

A Clarissa Pinkola, em seu livro "Mulheres que correm com os Lobos", chamou isso de "zona morta" da psique. Quando uma pessoa tem uma dor profunda da qual ela foge, o inconsciente começa a criar barreiras de proteção em volta dessa dor, anestesiando tudo à sua volta. Você vai se desconectando de coisas que possam te lembrar, ou te fazer de alguma forma entrar em contato com a dor...dependendo da proporção você pode acabar mesmo por se desconectar de tudo.

Então a única solução é parar de fugir.
A única solução é se conectar com a dor em si.
Abraça-la. Vivê-la totalmente. Até que se esgote ou que se acomode, como uma cicatriz se acomoda em nosso corpo, passando a fazer parte dele.
E isso nos torna mais fortes.
Quando você consegue passar por uma dor profunda e resistir, você se torna mais forte.
Mas passar não é negar.
Você muitas vezes pode viver momentos de dor, mas passar a vida negando eles emocionalmente.

Jung disse que a psicoterapia não é, nem nunca foi, um trabalho para ajudar as pessoas a se tornarem mais felizes, mas é sim um trabalho para ajudar as pessoas a lidar com suas dores. A conviver com elas.

Não, não vai passar. O seu passado não vai deixar de existir. As cicatrizes feitas por tudo que te marcou, não vão desaparecer. Mas ao invés de fugir delas, nessa compulsão incessante por tapar o "buraco da dor", podemos começar a aceita-las, convida-las para fazer parte do nosso ser, da nossa história, do nosso amadurecimento, não como uma vítima, mas como uma pessoa inteira, que como qualquer outra, possuí marcas.

Estamos tão compulsivos, por saídas, por bebidas, por prazeres, por "amores", por viagens, por objetos, por drogas, por palavras, por vidas alheias...por qualquer coisa que possa tapar o "buraco da dor", como se jogássemos ela no fundo de tudo e por cima todas essas coisas, pra soterrar a dor e nunca mais vê-la.
Só que ela é mais forte.
E enquanto não dermos as mãos pra ela, ela continuará sendo.

Eu ensino meditação aos meus pacientes e nos cursos que dou, porque acredito que é uma ferramenta incrível para acalmar a mente e para ajudar a entrar em contato com quem você realmente é, seu ser essencial, a fonte por trás dos pensamentos. É importante entendermos que não somos nossa mente, nossos pensamentos. Também não somos nossas emoções, mas elas fazem parte da gente. Todas as alegrias e dores fazem parte da gente. E elas podem ser uma ponte entre o ego e o self, isto é, entre todos os nossos "personagens" e quem realmente somos.

Precisamos nos curar dessa intolerância à dor.
Eu te garanto que, por maior que seja a sua dor, você não vai morrer se sentir.
Talvez, se não sentir...
Quando passamos por esses momentos de dor profunda morremos simbolicamente, uma parte de nós morre na dor, se transforma e renascemos fortalecidos como o mito da Fênix que morre e renasce das próprias cinzas.
Mas se passamos a vida negando uma energia tão forte, em algum momento ela pode nos engolir, como os dragões desenhados por tantos psicóticos e esquizofrênicos nos trabalhos de arteterapia...os dragões do fundo do mar, do inconsciente, que tanto tememos.

Olhe pro seu dragão. Lute com ele, até que vocês dois se tornem um. Se transforme no Dragão.
E jogue fora toda a crença de fragilidade emocional que foi imposta à você por uma sociedade doente, que precisa de pessoas frágeis pra se manter. 
Você é mais forte que isso.

Outra frase genial do Jung é: "Nada que faça parte de você pode ser mais forte do que você mesmo. Isso é uma ilusão"
A dor é sua. Ela é parte de você. Você inteiro é mais forte que ela.
Então pode dar as mãos a ela sem medo. Olhar nos olhos da dor e ouvir o que ela tem pra te dizer.
E sentir ela tão intensamente como você sentiu o dia mais feliz da sua vida.
Vamos quebrar essa ideia maniqueísta de que existe bem ou mal, certo ou errado, pois desde muito tempo isso só nos atrapalha.
A vida é. O universo existe com suas supernovas e seus buracos negros. 
Criação e destruição, luz e sombra: precisa-se carregar os dois dentro de si para ser inteiro.
Quando pararmos de negar a dor, e a morte (no seu sentido literal e simbólico), saberemos como lidar melhor com elas.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

As 15 melhores frases de Jung

"Parabéns pra você, nessa data querida..." rs
Hoje é aniversário do pai da Psicologia Analítica: Carl Gustav Jung.
Ele nasceu em 26 de Julho de 1875, na Suiça. E faleceu no dia 6 de Junho de 1961.
Sou suspeita pra falar, mas é impossível discordar que este homem foi realmente um sábio, que nos presenteou ampliando olhares, abrindo mentes e caminhos na estrada que leva ao si mesmo.


Em homenagem selecionei as suas melhores frases (na minha opinião).
Espero que gostem! ;) 

1. "Quem olha pra fora sonha, quem olha pra dentro desperta."
Essa é uma das mais conhecidas, mas é tão verdadeira que é bom lembrar sempre, não?

2. "A vida acontece num equilíbrio entre a alegria e a dor. Quem não se arrisca para além da realidade jamais encontrará a verdade."

3. "O que negas te subordina. O que aceitas te transforma."

4. "Mas existe no homem algo que seja mais forte do que ele mesmo? Não devemos esquecer que toda neurose é acompanhada por um sentimento de desmoralização. O homem perde confiança em si mesmo na proporção de sua neurose. O indivíduo sente-se derrotado por algo de 'irreal'."

5. "Eu não sou o que me acontece eu sou o que escolho me tornar."

6. "Onde o amor impera, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro."

7. "Não posso provar a você que Deus existe, mas meu trabalho provou empiricamente que o “padrão de Deus” existe em cada homem, e que esse padrão é a maior energia transformadora de que a vida é capaz de dispor ao indivíduo. Encontre esse padrão em você mesmo e a sua vida será transformada."


9. "A questão não é atingir a perfeição, mas sim a totalidade."

10. "Até você se tornar consciente, o inconsciente irá dirigir sua vida e você vai chamá-lo de destino."

11. "O principal objetivo da terapia psicológica, não é transportar o paciente para um impossível estado de felicidade, mas sim ajudá-lo a adquirir firmeza e paciência diante do sofrimento. "

12. “Por trás do homem não se encontra nem a opinião pública nem o código moral universal, mas a individualidade da qual ele ainda não tomou consciência.” 

13. "Até onde conseguimos discernir, o único propósito da existência humana é acender uma luz na escuridão da mera existência."



E pra fechar minha favorita:

"Só aquilo que somos realmente tem o poder de curar-nos."





sábado, 15 de julho de 2017

Mandalas: A expressão da essência

Mandala é uma palavra que significa "círculo mágico" em sânscrito, e se caracteriza por figuras circulares que são usadas há milênios em algumas culturas e religiões orientais para representar atributos divinos ou formas de encantamentos/orações (mantras).
A sua antiguidade remonta pelo menos ao século VIII a.C. e são usadas como instrumentos de concentração e para atingir estados superiores de meditação (sobretudo no Tibet e no budismo japonês).

Na Psicologia Moderna, Carl Gustav Jung, criador da Psicologia Analítica, ao estudar as mandalas orientais e sua utilização como instrumento de culto e de meditação, passou a desenhá-las, descobrindo o efeito de cura que elas exerciam sobre ele mesmo. Após anos de pesquisa e aprofundamento no conhecimento do psiquismo humano, ele passou a utilizar a construção de mandalas como método psicoterapêutico.

Pintura de Carl Gustav Jung no Livro Vermelho

Através de seus estudos ele percebeu que a mandala representa o nosso eu mais inconsciente, interior, a nossa essência, que ele denominou "Self". Quando desenhamos ou construímos uma mandala, estamos expressando ali uma espécie de mapa do nosso inconsciente e um caminho para reconhecermos nossa essência.

Somente o criar da Mandala já é um ato extremamente positivo para a psique de qualquer indivíduo, pois além de trabalhar a criatividade como qualquer processo artístico, ainda trabalha o simbolismo do círculo que representa a totalidade psíquica. Jung observou em trabalhos criativos de seus pacientes que, os pacientes com distúrbios psíquicos mais graves, não eram capazes de desenhar formas exatas, desenhavam riscos e imagens confusas. Conforme o tratamento ia evoluindo, começavam a desenhar formas e finalmente círculos. Os círculos representam a psique estruturada e coesa, a totalidade do ser, ou a expressão do "Self".

Além do processo de criação já ser terapêutico, ainda podemos trabalhar com a análise das mandalas, analisando o simbolismo dos elementos e principalmente das cores colocadas nos locais determinados, que representam pontos do  nosso inconsciente e do processo deste "caminhar para o encontro com si mesmo", que Jung chamou de Individuação.


A mandala já era utilizada como instrumento terapêutico, desde os tempos primitivos, pelos Xamãs indígenas da América e aborígenes da Austrália que, ainda nos tempos atuais, as gravam e desenham em areia colorida. Também, místicos ocidentais e orientais de quase todas as culturas, ao longo de toda a história da humanidade, já utilizavam mandalas como “um caminho para reencontrar seu próprio centro”.

Para Jung a mandala é a porta entre dois planos, o inconsciente (mundo interno) e as tarefas exteriores (mundo externo). Mas também é terra e homem. O homem que pode ser projetado no universo e o universo que pode ser projetado no homem. Micro e Macro cosmos, que na verdade são dois lados de uma mesma moeda. Nós somos o universo e parte dele, assim como temos parte do universo impresso dentro de nós.

Mandala Tibetana

Essa gama de simbologias que as mandalas oferecem, estão ligadas diretamente com os processos da fantasia, dos desejos, das motivações do inconsciente do indivíduo que a está criando. Toda essa representação de conteúdos internos, é fundamental para que possamos visualizar fora e de maneira mais clara, o que está acontecendo dentro de nós.

Podemos inclusive observar padrões, que nos tomam diariamente, por mecanismos de atuação condicionada e automática. Ou mesmo observar quais elementos e simbolismos fazem parte do nosso momento de desenvolvimento pessoal, e assim concluir como lidar e que caminhos seguir. Essa visualização dos processos internos, traz a possibilidade de fazer o devido manuseio diante das revelações que os simbolismos da mandala lhe revela.

Como os antigos bem definiam é "um caminho para encontrar o próprio centro". Uma ferramenta incrível que pode nos ajudar nessa contínua busca pelo auto conhecimento e transformação.

"A Mandala é uma imagem arquetípica cuja a precisão é atestada através dos anos. A imagem circular representa a totalidade, ou, colocando em termos míticos, a divindade encarnada no homem." (C.G.Jung)


****

Dia 05 de agosto vou oferecer um workshop em Campos dos Goytacazes onde ensinarei a criação e análise das próprias mandalas, baseado nas técnicas da psicologia analítica e na teoria da Alquimia Junguiana. Mais informações AQUI.

domingo, 25 de junho de 2017

O tempo interno e as pausas

"Adoro as pausas entre as canções..."
Quando eu era criança eu gostava muito de uma música que tinha essa frase, e essa frase me fez começar a reparar as pausas entre as canções, e eu realmente adorava aquele momento de silêncio entre uma música e outra, me transmitia uma sensação muito boa, mas que eu não entendia muito na época.

Hoje venho pedir pra vocês refletirem profundamente sobre a importância das pausas. Você se permite dar pausas? No seu dia? Na sua vida? E as pausas internas no turbilhão dos pensamentos, sentimentos e emoções? A maioria de nós não se permite, mas...porque?


A nossa sociedade nos impõe e valoriza uma aceleração e um modo operante contínuo, sem pausa. A pausa se tornou sinônimo de preguiça, de postergar, e estamos caindo nessa armadilha sem perceber o mal que isso nos faz. Nosso corpo muitas vezes precisa adoecer, pois chegamos num limite tão grande de exaustão que ele nos obriga a parar. Acreditamos fortemente que "não temos tempo", "não da pra parar", "não posso não fazer todas as milhares de tarefas", acreditamos realmente que todas são essenciais e nos cobramos realiza-las, porém nos esquecemos do que é mais essencial: nós mesmos. 

Essa forma de viver é tão forte que já esquecemos o que são as pausas de verdade. Pausa não é ver um filme, não é ficar rolando a tela do faceboook vendo a vida dos outros, não é ler matérias online, não é ver novela, não é nem ouvir uma música ou viajar...Isso tudo ainda são estímulos que absorvemos e que precisamos digerir. Não estamos nos dando tempo de digerir nada, e quando eu falo de digestão não estou falando apenas da alimentação.
Nutrição é tudo que a gente absorve. Cuidar da sua própria nutrição é cuidar de tudo que "entra" no seu corpo, no seu ser.



Você já parou pra pensar em quanta coisa você está absorvendo por hora? Por minuto? Todos os dias? Quanta informação, quanto estímulo, quantas imagens, palavras, símbolos...todos eles acessam nosso inconsciente de alguma forma e geram emoções e sensações, muitas vezes sem que a gente perceba conscientemente. A tecnologia hoje, principalmente a internet, nos mantém mergulhados num excesso incomensurável de informações por segundo, as quais mal temos tempo de assimilar, quanto mais de digerir, porém tudo isso está "entrando" em nosso ser, tudo isso está indo de alguma forma pro nosso inconsciente, fazendo parte de você. Já parou pra pensar o quão forte isso é?

Do que estamos nos alimentando então? Será que estamos realmente escolhendo esse alimento? E estamos nos dando tempo de digeri-los? O quanto nós estamos viciados nessa aceleração e nesse excesso de estímulo, e acabamos nos dando mil desculpas pra não parar, enquanto no fundo a verdade é que nos viciamos nessas sensações? O quanto nosso ego acredita que precisamos ser assim, "antenados", "ligados no 220Volts", para sermos valorizados na sociedade, e muitas vezes, valorizados por nós mesmos?


Todo ciclo precisa de pausas, antes de um recomeço, após um encerramento, após uma grande ideia surgir e antes de realizá-la, após a realização de um projeto...
O corpo precisa de tempo pra digerir o alimento, a terra precisa de tempo pra germinar a semente plantada, estamos querendo alterar o tempo natural dos ciclos da vida, da natureza. Todos nós temos nosso tempo interno, nossos ciclos internos, o quanto estamos desrespeitando eles? As mulheres mais ainda, com seu período lunar de sangramento, de renovação, que é naturalmente um momento de introspecção, onde nos sentimos mais cansadas fisicamente, mais lentas...O quanto estamos violando o nosso corpo, a nossa natureza?


Comece a olhar para o seu tempo interno e respeitar ele, comece a sentir de forma mais consciente o seu corpo e entender as pausas que ele necessita. Mesmo que seja por 5 minutos diários desconecte-se do externo e conecte-se com o interno, com você mesmo, com seu ser. Pare, respire fundo e escute o que ele pede.
Não esqueça que não somos máquinas, logo não podemos e não devemos nos comportar como elas. Somos natureza, então volte-se para a sua, enquanto ainda dá tempo.


terça-feira, 30 de maio de 2017

Meditação na Clínica

A psicanálise Freudiana afirma que é preciso fortalecer o ego para ter uma vida plena, e a clínica psicanalítica trabalha com essa ideia de fortalecimento do ego. Já o budismo e outras  filosofias orientais afirmam que é preciso abandonar o ego para ter uma existência mais significativa, para evoluir... Será que apenas um desses pensamentos estaria certo?

Atualmente existem muitos estudiosos, psicólogos e terapeutas que buscam integrar essas duas vertentes de pensamento, que parecem a princípio opostas. Porém poucos admitem, ou mesmo conhecem, o fato de que há aproximadamente um século Carl Gustav Jung já havia integrado esses dois pontos de vistas da humanidade, quando desenvolveu a sua teoria do "Processo de Individuação" e conceitos como o "Self".



A Clínica Junguiana sempre se propôs a ajudar o indivíduo a ir muito além do fortalecimento do ego, buscando um aprofundamento no âmbito do inconsciente coletivo, um "descascar" de camadas superficiais, e a integração dos opostos até a totalidade psíquica. A "busca" por essa totalidade, o entendimento do universo como um todo e a compreensão da integração de todas as "partes" existentes, também estão presentes no budismo e em outras filosofias orientais.

Para Jung nós não somos o nosso ego. Não somos formados apenas pelas nossas experiências, influências do ambiente e de pessoas "chaves" no desenvolvimento infantil como pais, familiares e professores; isso tudo forma o ego. Porém nós temos um "centro" essencial, que vem antes disso tudo, inato, que seria quem realmente somos. A este outro centro da psique Jung denominou "Self". Todo o processo de individuação se resume na tomada de consciência desse self. 



Inicialmente nós só temos consciência do ego, ele que define para nós mesmos quem somos. O Self está inconsciente. Durante o processo de individuação (que vale lembrar é um processo contínuo, infinito e não linear), começamos a integrar os conteúdos que estão no nosso inconsciente, e assim nos tornamos cada vez  mais inteiros, cada vez mais conscientes de quem realmente somos. 

Jung definiu algumas etapas desse processo, que como eu já disse, não é linear, porém podemos ver alguns pontos pelos quais todos passam, como:



  • o reconhecimento da persona, que são os papeis sociais que interpretamos e nos identificamos, que usamos como "máscaras" em nosso dia a dia; 
  • o confronto com a sombra que são os nossos conteúdos mais inconscientes, os quais negamos, não queremos admitir que temos e projetamos no outro; 
  • e a integração da ânima e do ânimus, que são as energias Yin e Yang (feminino e masculino) que existem dentro de nós. 




Todas as etapas desse processo são passos a caminho da totalidade psíquica e nos aproximam mais da nossa verdadeira natureza, pois é como se fossemos tirando camadas que nos impediam de percebe-la. Conforme vamos percebendo essa natureza essencial, ela vai se tornando mais consciente e logo mais ativa em nossa vida e dia-a-dia. Passamos a pensar e agir mais da forma que realmente somos do que da maneira antiga do ego. Porém você não deixa ter ego. Ele continua existindo, pois você precisa dele pra viver em sociedade, ele só não comanda mais totalmente a sua vida.



Logo na clínica Junguiana trabalhamos sim no fortalecimento do ego, mas para que a pessoa tenha estrutura psíquica para enfrentar todas essas etapas e desconstruir essa "falsa" identidade para encontrar quem ela realmente é.

Todo esse processo se assemelha muito a alguns textos e filosofias orientais. Principalmente as não-duais que defendem exatamente o encontro da verdadeira natureza, mas sem negar o mundo em que se vive, a realidade externa. 

Algumas práticas de meditação, como por exemplo a meditação mindfulness, propõe a atenção plena no momento presente e o "desligar" dos pensamentos, que nos traz a compreensão de que não somos a nossa mente, mas sim uma consciência "além" dela, que a observa e que pode sim, "controlá-la". Com a regularidade dessa pratica, realmente sentimos que não somos os nossos pensamentos, sentimos essa "atenção plena" essa consciência por trás da mente. Em outras palavras a proposta é a mesma do processo de individuação, um distanciar do próprio ego, para compreender que somos muito mais que ele.



Quando não nos identificamos com nossos pensamentos, os processos de "cura" se tornam muito mais acelerados. Se você observar são os nossos padrões de pensamentos, nossa forma de pensar, nossa mente, que cria as nossas patologias. Se conseguimos nos distanciar deles, observar seus padrões e começar a quebrar e/ou transformar esses padrões, podemos amenizar imensamente ou até mesmo acabar com diversas doenças da mente e do corpo. 

Se você se identifica com a sua doença ("eu sou ansiosa", "eu sou deprimida", "eu sou gorda/magra/feia/etc - e por isso tenho um distúrbio alimentar", enfim poderia dar milhares de exemplos...) o processo de cura se torna muito mais difícil, pois curar seria abandonar uma parte de si, seria "destruir" uma parte do seu ego, do que você acredita ser, sua identidade. Por pior que a doença possa ser na prática, isso gera um enorme apego inconsciente e, também de forma inconsciente, o ego se defende de tudo que quer "destruí-lo", resumindo seu inconsciente trabalha contra a cura.



Se compreendemos e sentimos que não somos apenas esse ego, que não somos esses pensamentos, que existe uma natureza do ser mais profunda e livre desses padrões, automaticamente nosso inconsciente busca essa natureza de forma muito mais contundente, pois como disse Jung, o nosso inconsciente busca naturalmente a integração, a totalidade psíquica. Por isso a meditação é tão eficaz no processo, pois com regularidade a prática traz exatamente essa sensação de "Ser": essencial, pleno e inteiro.

E combinada com a terapia, ao mesmo tempo trabalhamos no fortalecimento da pessoa para que ela consiga lidar com o processo de "abandono" do que ela acreditava ser, que é um processo possível porém bem difícil de se fazer só; e em paralelo com o reconectar-se com a sua essência, com seu self. É um caminho espiralado de confrontar, compreender, abandonar e reconhecer...Não foi à toa que Jung denominou de processo de individuação, pois é mesmo um processo, que não tem um objetivo final, é um processo de uma vida inteira. 



Porém por mais "trabalhoso" que pareça ser, é imensamente recompensador. Sentir a plenitude dentro de si, sentir que você controla a sua mente e não ela que te controla, sentir que você é capaz de se amar, de se acolher, de ser quem você é independente de outros ou de algo externo...são experiências que Jung chamou de "numinosas", pois são difíceis de explicar em palavras, é algo que contém a sensação de sagrado. 


No mês de Junho estarei apresentando uma palestra no Rio no II Congresso de Clínica Junguiana e Arteterapia: Tradições e História da Arte (Informações: clique aqui) e um workshop teórico e prático em Campos dos Goytacazes (Informações: clique aqui), ambos sobre o uso da meditação na clínica Junguiana.






sexta-feira, 19 de maio de 2017

Como os nossos pais

A psicanálise nos chamou atenção para o peso da influência das relações parentais (mãe e pai, ou quem ocupar esse papeis) na formação de nossa psique e personalidade. Hoje já sabemos que nossas experiências e sentimentos nos primeiros anos de vida não só influenciam, como podem ser cruciais, na estrutura do nosso ego e determinantes nos nossos sentimentos e ações futuras.  Pesquisas mais recentes também comprovam a influência da mãe e do pai na vida intra-uterina, e como a maneira que a mãe se sente pode afetar os sentimentos  e a formação da psique do bebe.

Porém também sabemos que nenhuma família é "perfeita", todas as mães passam por estresses e dificuldades, mesmo em circunstâncias externas adequadas, pois a própria gravidez é uma experiência carregada de conteúdo emocional e que afeta o inconsciente da mãe. Não existe uma fórmula mágica que diga o que deve ser feito. Então como lidar com o fato de que o que entendemos como nosso "eu" teve sua base em experiências das quais não recordamos e, o "pior", não tivemos o menor controle? Como aceitar que as ações, sentimentos, e até o inconsciente de nossos pais influenciam tanto em quem nós somos?


Não culpar é a primeira dica. Aliás "culpa" deveria ser uma palavra proibida, excluída de nosso vocabulário, porque ela só atrapalha nossa vida e nosso desenvolvimento pessoal. Como disse anteriormente não existe uma cartilha de como ser mãe ou pai, e a primeira coisa que precisamos entender é que no momento em que uma criança começa a ser gerada, todas as questões inconscientes da gestação e infância dos próprios pais vem à tona. Então além das dificuldades diárias que podem existir como replanejamentos financeiros,  logísticos e familiares; da consciência da responsabilidade que é dar à vida a um ser que por muitos anos permanecerá indefeso e dependente de você; ainda tem as questões inconscientes, que a maioria não da atenção, mas que estão presentes e com certeza influenciando ações e sentimentos. Compreender que os pais são seres humanos com passados, traumas, vivências e dificuldades é o primeiro passo para parar de culpá-los, seja pelo que for.

Não se culpar também é muito importante, afinal quantas mães e pais tem o privilégio de planejar e escolher o momento perfeito para ter um filho? Muito poucos. Então a tal "gravidez indesejada" é o mais comum de vermos por aí, e na minha opinião um jeito péssimo de caracterizar uma gravidez. Toda criança é desejada, mesmo sob as piores circunstâncias imagináveis. Ou você realmente acredita que o inconsciente não tem papel nenhum num evento cósmico tão trabalhoso quanto a reprodução humana? Vejo na clínica muitos casos de adolescentes e adultos que sentem culpa ou sentimento de rejeição e não entendem porque, muitas vezes pode ser derivado do sentimento de "não ter sido desejado", vindo de forma inconsciente ou mesmo por coisas que os próprios pais acabam contando para os filhos.

"Qualquer experiência, não importa quão ruim ela pareça, guarda em si uma ´benção´. O objetivo é encontra-lá."

O importante nessa relação é a consciência. Da parte dos pais a consciência da responsabilidade que é ser parte fundamental da formação da psique de outro ser humano, para assim poder tomar decisões mais conscientes em relação aos filhos. E da parte dos filhos, quando crescem,  a consciência de que não existe uma "cartilha" pronta para a criação de uma criança, a libertação de conceitos dualistas como "certo" ou "errado" e a compreensão de que se só pode dar o que se tem, o que se aprendeu. Os pais são seres humanos com seus inconscientes cheios de questões como qualquer outro ser humano. Abandonar os arquétipos de mãe e pai idealizados socialmente, pode ser libertador nessa relação.

Eliminando a culpa nos resta a aceitação. Aceitar que nossa base emocional e psíquica é formada nesses icógnitos primeiros meses de vida, dos quais não temos nenhuma lembrança, onde estávamos totalmente vulneráveis; e mais ainda, aceitar que somos parte de nossos pais, que nossas ações hoje certamente tem influência das ações deles, que nossa forma de ver o mundo certamente tem influencia da forma como eles viam o mundo...Difícil para alguns aceitar isso não? Mas aceitar é o primeiro passo para transformar.

A má relação com os pais, principalmente na adolescência, faz com que a pessoa comece a negar tudo o que eles são. Não queremos nos parecer com aquilo e por isso é comum negarmos fortemente suas maneiras de se comportar e pensar, buscando fazer tudo diferente. Porém quando negamos nossos pais, estamos negando uma parte de nós. Estamos negando a nós mesmos.

A negação faz com que a gente não veja, com que a gente "empurre pra baixo do tapete" tudo aquilo que nos incomoda, mas a poeira não desaparece, ela está lá se acumulando. Essa negação de si mesmo em larga escala, pode gerar conflitos de personalidade, problemas de auto estima, conflitos de auto imagem e tendências auto destrutivas.

Deméter e Perséfone - Mito grego do feminino oposto e completar na relação mãe/filha.


 Isso é relativamente comum na adolescência, pois é uma fase em que começamos a ter a necessidade de nos diferenciar de todas as referências que temos para fortalecer uma personalidade própria e independente, porém não é menos comum ver adultos que não passaram dessa fase, no sentido de que, por ter uma relação ruim com as figuras parentais, mantém essa negação para o resto de suas vidas, não aceitando simbolicamente aquelas partes dentro de si, e conseqüentemente passarão isso adiante para seus filhos.

E como nos diferenciar sem negar? Aceitando, reconhecendo e transformando. Se aceitamos as figuras maternas e paternas como elas são, compreendendo na medida do possível seus processos como seres humanos, e também aceitamos essas figuras simbolicamente dentro de nós mesmos, reconhecendo que somos sim influenciados por elas e que com certeza temos semelhanças fortes em nossa psique, podemos a partir daí ter a clareza e a consciência do que queremos transformar. Dessa forma podemos nos diferenciar, abraçando e acolhendo tudo de construtivo e positivo que nos foi herdado e trabalhando na evolução do que, por algum motivo, considerarmos nocivo.



Somente através desta compreensão e aceitação teremos o poder da transformação e as rédeas de nossas vidas. Do contrário continuaremos negando, acreditando que não somos nada daquilo e inconscientemente repetindo seus mesmos passos, talvez de outras maneiras, porém com a mesma energia. Afinal, só podemos transformar aquilo que estamos conscientes.
                                                        


sexta-feira, 14 de abril de 2017

O Olhar do "Outro"

A maneira como as pessoas atualmente usam as redes sociais  é um fenômeno psicológico que me chama muita atenção e me faz pensar e questionar diversos fatores do ponto de vista psicológico. O aprofundamento nesse tema poderia dar um livro, mas por enquanto vou resumir alguns pontos de vistas pessoais, porém com embasamento em meu conhecimento e estudos sobre o ser humano, e espero que meus questionamentos sirvam também para você, leitor deste blog.

A primeira pergunta que ecoa na minha cabeça diante dos fenômenos sociais da atualidade (não só as redes sociais, como reality shows e afins...) é: Porque será que precisamos tanto do olhar do outro para validar nossa identidade? Vivemos num momento que parece que "ser" não basta, é preciso mostrar que se é. Mais do que isso, me parece muitas vezes que sem "platéia" as pessoas simplesmente não são. Ou nem sabem quem são. Inclusive passou a valer mais dizer que é, ou o que fez, do que de fato ser ou fazer.


Muitas pessoas criam uma persona para a sociedade que de fato não são, mostram supostas ações que de fato não fazem, e o que mais me impressiona é que observo que esse "mostrar", essa criação dessa persona aos olhos dos outros, conforta e preenche como se a pessoa realmente fosse aquilo. Isto é, como por exemplo, se todo mundo acha que eu sou generosa, ajudo as pessoas, faço doações, etc. não importa mais se eu faço ou não, o que importa é como os outros me veem. E eu me distancio cada vez mais de mim, de como eu me vejo, criando uma auto imagem totalmente ilusória e em desacordo com a realidade.

O olhar do outro é um tema antigo e recorrente nos estudos de psicanálise e da mente humana, e sim ele é extremamente importante e, em algumas teorias até essencial para a construção do ego e da identidade. Lacan por exemplo fala muito sobre o tema quando descreve o que chamou de "estágio do espelho", momento onde o bebe não tem percepção ainda do que é o seu próprio corpo físico e o que é o corpo físico da mãe ou o mundo externo. Em sua percepção é como se tudo fosse uma coisa só, e ele começa a se definir ao olhar pra mãe (ou quem faz esse papel), sentir o corpo da mãe e aos poucos perceber que aquele é um outro ser, que não ele. E a partir daí começa-se a se constituir a noção de ego, de identidade separada do todo, quer dizer através do outro há a criação do seu próprio eu.

Winnicott também estudou muito sobre essa fase dos primeiros meses de vida, ressaltando a importância da mãe (ou de quem faz o papel de mãe) nos primeiros meses do bebe, pois é exatamente a partir desta relação que começa a construção do ego. Mais pra frente, quando a criança já tem noção da sua identidade separada do todo, o "outro" continua sendo fundamental na formação da personalidade, pois a cultura, os pais, a família, os professores, todos esses estímulos externos serão responsáveis pela formação do nosso super ego, segundo Freud. Isto é, irão definir todas as nossas crenças, ideais de certo e errado, limitações, medos e desejos.

E assim nossa mente cria essa identidade ilusória que tanto nos apegamos durante toda a vida...
Você percebe como todo o processo de criação de uma identidade é feito por estímulos externos, isto é, pelos "outros"? Como então isso pode ser você???


Observando esse processo, acredito que seja fácil perceber que existe um "eu" que não é essa identidade, existe um consciência "por trás" de todo esse processo, observando seu decorrer. E acredito que também seja fácil perceber que o que chamamos de identidade não somos nós de fato, é apenas um conjunto de concepções externas que introjetamos durante a vida. Nossa identidade é, de fato, "os outros". Então porque nos apegarmos tanto a ela ao invés de buscar quem realmente somos "por baixo" de todas essas camadas "de outros"? 

O que me assusta atualmente é que me parece que muitas pessoas estão fazendo o caminho contrário, estão se apegando cada vez mais a essas máscaras, personas, identidades ilusórias... e a insegurança de no fundo saber que não se sabe quem é, gera uma necessidade de auto afirmação infantil, como se todos voltassem para aquele estágio onde apenas o olhar do outro nos define.


Não somos mais bebes recém nascidos...Nossa mente já criou e fortaleceu uma identidade e nossa consciência já é capaz de observar essa identidade e compreender o "quebra cabeça" da qual ela é formada. Sim, precisamos dela para lidar com a realidade, o mundo externo, a sociedade. Mas precisamos também nos lembrar a todo momento que não somos ela. Você não é a sua patologia, sua doença, sua depressão, ansiedade, o seu mal humor, a sua ideologia... Não somos nada disso. E não é bonitinho dizer que somos! Também não somos nossa amizade, nossa generosidade, nosso entusiasmo ou alegria...Porque a limitação de nos definir como um ponto microscópico se na verdade somos um todo infinito?

É preciso coragem para se encontrar. É preciso a coragem de assumir que não se é nada daquilo que sempre foi. É preciso a coragem de não precisar mais do "olhar do outro" para te definir, e dar um profundo mergulho dentro de si. O caminho é pra dentro e não pra fora. A liberdade só é possível quando se sabe quem é, e apenas quem você realmente é pode te curar de qualquer coisa.



quarta-feira, 22 de março de 2017

O que é um Complexo e como ele atua na nossa psique

Com certeza você já ouviu falar de "complexos" o uso desse conceito se tornou comum através de termos que foram popularizados, como "complexo de inferioridade", "complexo de Cinderela", entre outros que acabaram sendo muito falados, porém nem sempre muito bem utilizados ou explicados. Por isso vamos entender melhor o que é um complexo.

Esse conceito foi desenvolvido por Carl Gustav Jung que o denominou como "Complexos Afetivos", resumidamente seriam "um conjunto ou aglomerado de ideias ou representações mentais dotadas de forte carga afetiva". Os complexos se organizam a partir de experiências emocionais significativas para o indivíduo, mas que por algum motivo se tornam inconscientes, seja por serem reprimidas pelo consciente ou por serem um conteúdo totalmente novo para ele.

Carl Gustav Jung


Simplificando, os complexos seriam como "nós de emoção", diversas experiências, pensamentos, sentimentos que se conectam em torno de um mesmo conteúdo emocional ( um mesmo afeto). O complexo sempre tem um conteúdo emocional principal, um núcleo inconsciente, e as conexões se dão a partir dele, com elementos semelhantes, essas conexões que esse núcleo faz podem ser muitas e quanto maiores, maior a influência do complexo no nosso consciente, isto é no nosso dia-a-dia, muitas vezes sem nos darmos conta.



Pegando um exemplo dos mais comentados que é o complexo de inferioridade, a pessoa que o possuí muitas vezes não percebe que o possuí. Ela pode ter tido diversas experiências que a levaram a se sentir inferior, como pais que diminuem os filhos, ou comparam com os irmãos fazendo um se sentir melhor/pior que o outro; bulling de colégio de colégio e faculdade; posição social; cargos de trabalho e por aí vai... Todas essas experiências de certa forma geram o mesmo sentimento: de inferioridade. Logo toda a energia que essas experiências geram, todas as emoções e pensamentos que essas experiências geraram ficam aglomeradas no inconsciente em torno deste sentimento e toda vez que a pessoa sentir a inferioridade de novo, ela acenderá um alerta na psique que irá mexer com todo esse conglomerado de energia.

Na maioria das vezes o nosso consciente repele este sentimento, este conglomerado todo, isto é, este complexo; pois não sabe lidar com ele, e muitas vezes busca compensar através de uma busca inútil pelo sentimento "oposto", no caso, o de superioridade ou de poder. Uma pessoa com este complexo, por exemplo, pode acabar diminuindo os outros ao se sentir inferior. Ou buscar construir uma imagem dela mesma como alguém "superior" aos outros. Porém o complexo está ali, presente em seu inconsciente, e quanto menos conhecemos ele, mais ele pode nos dominar.



Jung dizia que "nós não possuímos complexos, são os complexos que nos possuem." Exatamente porque quanto mais inconsciente essa carga enorme de energia está, mais fácil é dela explodir e te dominar sem que você perceba. Principalmente em momentos conflituosos.

Porém os complexos por si só não são patológicos, isto é, não são uma doença ou um problema, na verdade eles apontam para o problema, eles mostram que existe um conflito em relação aquela determinada questão, nos direcionam para o âmago do conflito, e assim nos dão a chance de torna-lo consciente para que ele seja transformado.


Na escuridão nada pode ser visto. Jung também costumava dizer que "o inconsciente é inconsciente". O que significa que, se é inconsciente nós na verdade não temos nem a chance de saber, muito menos de transformar. Por isso iluminar esses conteúdos é o primeiro passo para a transformação.

A Terapia Junguiana, e tantos outros métodos de terapia e auto conhecimento que existem hoje, são ferramentas que podem te ajudar nessa investigação interna, porém o caminho só pode ser trilhado por você e para dentro de você. E exige determinação, é uma busca constante por se tornar inteiro.


Jung também observou que os complexos teriam ligações com os arquétipos, pois constatou que existem tipos bem caracterizados e facilmente reconhecíveis de complexos em diferentes pessoas, o que sugere que esses repousem sobre bases igualmente típicas e comuns a todos os seres humanos – os arquétipos. Visto dessa forma, há sempre uma ligação entre as vivências individuais e as grandes experiências da humanidade.


quarta-feira, 8 de março de 2017

O caminho da transformação - Tópicos para ajudar no processo

Todo mundo quer mudar algo em si, seja um hábito, um padrão emocional, um vício, uma forma de pensar...e por aí vai. Mas como começar esse processo de transformação e como conseguir alcançar seu objetivo?

A primeira coisa para compreender é que a transformação é um processo. Não é algo que acontece da noite pro dia. Muitas vezes queremos transformar determinados aspectos ou hábitos que temos há muitos anos, às vezes por toda nossa vida, e precisamos entender o quanto aquele padrão está enraizado em nós, em nosso inconsciente, influenciando nossos pensamentos, ações e até mesmo nossa forma de ver o mundo.

Aliás, este é um ponto importante, você sabe o quanto seus pensamentos e hábitos influenciam a sua forma de ver o mundo?



No budismo tibetano existe uma teoria chamada de "Os 6 Reinos" ou "estados psicológicos da alma",  que explica que durante a vida passamos por diversas "dimensões" mentais, de acordo com a forma que pensamos e, consequentemente, agimos. Citando o inferno, dirigido pela raiva, o reino dos fantasmas famintos pela avareza, o dos animais (preguiça), o nosso reino humano (necessidade de controle), o dos semideuses ou titãs (competição/inveja) e o dos deuses (orgulho). Esses reinos nada mais são do que estados psicológicos no qual entramos que criam um "filtro" em nossos olhos, passamos a ver o mundo, as pessoas e tudo a nossa volta através desse filtro.

A Roda da Vida - Imagem que exemplifica os 6 reinos do Budismo

Por exemplo, se meus pensamentos são sempre negativos, eu acordo já de mau humor, a primeira coisa que não sai de acordo com a minha expectativa eu já penso "hoje não é meu dia" e já começo a achar que vai dar tudo errado...eu estou condicionando a minha mente a ver "problemas" e vou passar a ver isso em todos os acontecimentos do meu dia. No fim do dia estarei pensando "Que dia infernal!". Enquanto que para uma outra pessoa que manteve a sua mente no momento presente, sem fantasias ou expectativas, pode ter resolvido os mesmos problemas com mais clareza e simplesmente teve um dia ótimo.

 Não é só uma questão da famosa "lei da atração", o que pensamos atraímos, é também o fato de que a forma que pensamos determina a forma como vemos o mundo.

Dito isso, é importante então começar um processo de transformação consciente. Saber que numa transformação profunda, você não irá transformar apenas seu interior, seus hábitos e pensamentos, mas sim todo o "seu mundo" irá mudar. E esse é o primeiro tópico do nosso caminho:

1. Consciência da Transformação:
Você sabe o que você quer mudar e porque? Tenha plena consciência do porque o fator em questão é negativo pra você e descubra os valores que virão quando atingir a transformação. Tenha consciência do que irá mudar na sua vida e o que você vai "ganhar" com isso, pois o processo pode ser difícil, logo é importante você focar nos pontos positivos que irão surgir com a resolução.



2. Paciência e Acolhimento com você mesmo:
Qualquer processo de mudança é uma morte. Forte isso não? Mas é a verdade e por isso temos tanto medo de mudar, principalmente padrões e questões muito profundas. Então depois de estar consciente dos termos e profundidade dessa transformação, o próximo passo é entender que não é fácil e aceitar as dificuldades que surgirem em cada momento.

Você deve lembrar há quanto tempo aquilo é um hábito pra você, e entender que anos de comportamentos e pensamentos influenciam em tudo, até mesmo na sua identidade. Você está deixando uma parte de você que já não te serve mais e se tornando uma nova pessoa. O ego não gosta disso, e nossos apegos vão nos dificultar. Então tenha paciência com você mesmo, se escute, e perceba o momento de ir mais devagar. Tenha compaixão e amor por você em todo o processo. Não brigue com você e não se cobre, pois as cobranças só tornam o processo mais sofrido.



3. Planejamento - Comece pelo mais fácil:
Planejar ajuda muito! Faça uma lista de ações que você precisa tomar para estabelecer essa mudança, e faça uma agenda enumerando que ações você fará a cada dia. Comece sempre pela ação que parece mais fácil e prazerosa pra você. Isso porque a frustração é um dos fatores que mais atrapalha o processo.

Se você se propõe a fazer um movimento e não consegue, você se frustra, se sente mal e sua força de vontade diminui, assim você perde a energia e vai deixando de fazer mais coisas e se frustrando mais e isso vira um ciclo vicioso. O contrário gera um ciclo positivo, se você se propõe a um pequeno movimento e consegue realiza-lo, mesmo que não seja imenso, você sente que fez o que se propôs e isso alimenta a sua força de vontade, faz com que você se sinta produtivo e assim você tem mais energia para realizar a próxima etapa.


4. Tenha uma âncora:
A âncora seria algo que vai te trazer de volta nos momentos que você pensar em desistir. Ela pode ser uma motivação mental, uma recompensa que você pode se permitir, ou até mesmo um objeto que te faça lembrar e principalmente sentir a sensação boa da transformação concluída. Um exemplo bobo, mas eficaz é quando uma pessoa quer perder ou ganhar peso e guarda uma foto de quando ela estava com o corpo que ela considera ideal pra ela. Aquela foto lembra a ela como ela se sentirá bem quando concluir o processo. A âncora traz para o presente a sensação que você precisa sentir.

A minha âncora, por exemplo, sempre foi a meditação. Para diversos processos de transformação eu uso a meditação como âncora, pois durante o estado meditativo eu me lembro da minha essência, de quem eu realmente sou, e sei que aquele processo vai me aproximar mais de mim mesma e da possibilidade de manter esse estado no meu dia-a-dia.

O importante é que a sua âncora te lembre do porque estar engajado no processo e te ajude a trazer pro presente o estado mental e emocional que você pretende alcançar. E isso nos leva para nossa última dica:



5. Esteja presente:
Sabe aquela velha premissa do "um dia de cada vez" dos grupos de auto ajuda? É simplesmente isso. Essa premissa sempre ajudou nos processos de mudança, porque ela simplesmente traz a nossa mente pro presente. Se você decide parar de fumar e passa todo o tempo pensando "nunca mais vou fumar na minha vida", será muito mais difícil você conseguir parar realmente, pois um pensamento tão drástico como esse deixará todo seu corpo em alerta, devido ao vício químico e psicológico  que o cigarro cria no corpo. Se você pensa "não vou fumar hoje" seu corpo e mente conseguem lidar melhor com a sentença. E afinal é sempre hoje. E só hoje importa. É como usar um truque "contra" nossa mente, para facilitar o processo.



Espero que esses tópicos ajudem a todos que estão passando por processos de mudança. Na verdade estamos sempre passando por processos de mudança sejam transformações conscientes ou inconscientes, pois a vida é movimento, se algo está estático, está morto.

Por fim deixo o meu email como contato para qualquer um que sentir vontade de receber uma ajuda durante o processo, sintam-se à vontade para pedir dicas, informações, textos, dicas de livros ou apenas um "help": vanessa.cmartins@gmail.com





quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Abrindo mão do controle

Essa semana vi um vídeo sobre desapego e decidi falar mais sobre o tema, pois percebo na minha clínica que no fundo o desejo e a grande dificuldade de todos é desapegar, seja de padrões, seja de passado, de pessoas, ou de hábitos nocivos. O vídeo se chama " O Coração do desapego" e é de um Psicoterapeuta e professor de Yoga chamado Michael Stone.

Atualmente ouvimos muito falar sobre desapego, sobre iluminação e outros conceitos do budismo e filosofias orientais, mas será que entendemos o que é realmente desapegar de algo?
Nós seres humanos somos extremamente apegamos, não só a coisas como nossas casas, carros e objetos pessoais, como também somos apegados a pessoas, a sentimentos, a emoções, a situações, a idealizações, fantasias...Somos apegados ao tempo e a tantas coisas abstratas que de fato não existem no momento presente.

E porque todo esse apego? A resposta é simples: Necessidade de controle. 
Nossa mente tem uma necessidade imensa de controlar tudo, e um medo indescritível de perder este controle. Se repararmos em nossos pensamentos, iremos perceber que estamos sempre pensando em situações do passado, (emoções, pessoas, apegos..)ou em situações do futuro, que não ocorreram ainda, (planejamentos, desejos, objetivos...). Nossa mente nunca está no momento presente, porque no momento presente não temos essa ilusão de controle. O presente simplesmente é o que é. E nossa mente não sabe lidar com isso.



Mas a boa notícia é: Você não é a sua mente. Se ficarmos atentos conseguiremos perceber a consciência por trás desses pensamentos, e podemos conseguir trazer a nossa mente pro momento presente, acalmando os pensamentos e abrindo mão do controle. A meditação ajuda muito nesse exercício.

Eckart Tolle em seu livro "O Poder do Agora" diz que  "todas as coisas realmente importantes como a beleza, o amor, a criatividade, a alegria e a paz interior surgem de um ponto além da mente. É quando começamos a acordar. " 

O mesmo dizia Jung sobre o Ego e o Self. Nossa mente, nossa ideia de identidade e nossa identificação com os pensamentos, são apegos do nosso Ego. A necessidade de controle é do Ego, e temos medo de ver o que existe "além" deste ego, pois estamos por demais apegados a nossa ideia de identidade. Porém é só desapegando dessas ideias e identificações que trazemos para a consciência nossa verdade mais essencial.



Desapegar não é não se importar com nada, não é vender seus pertences e viver pelo mundo como um monge no alto da montanha, ou não ter sentimentos e andar por aí como um zumbi. Desapego significa não estar preso a sua mente, não estar preso a ideias fixas e se abrir para aceitar as coisas como realmente são. É engajamento com o presente. É estar totalmente envolvido com a sua vida. É intimidade.

Intimidade não é algo que se cria, intimidade é exatamente abrir mão das ideias fixas, desapegar. Se você tem ideias enraizadas sobre uma pessoa, você nunca verá essa pessoa como ela realmente é, logo nunca será intimo dela. Isso vale pra tudo, você se torna intimo do universo quando o vê como ele realmente é, belo e terrível ao mesmo tempo. Você se torna intimo da sua própria vida, e do mundo, quando se abre para aceita-la como é, todas as belezas, alegrias e dificuldades e tristezas. 




A iluminação não é transcendência mas sim estar totalmente imerso na vida e aberto para o presente.





Vídeo original "The Heart of Non-Attachment"